Cosmo Juvela
“Investir no Capital Social, na educação, capacitação e crescimento do ser humano gera benefícios econômicos”.
Jorge Gerdau
Concorrido, mas frustrante o encontro entre editores e livreiros e o professor Fábio Sá Earp, da Universidade do Rio de Janeiro, na sede da Câmara Brasileira do Livro, sobre a pesquisa do setor, financiada pelo BNDES.
Concorrido, porque todos estamos preocupados em saber a quantas anda o nosso maliluminado túnel, mormente em face dos números antecipados que evidenciam uma queda de nossa produção de 1995 a 2003 em assustadores 48%. Todos estamos ávidos de saber se há esperanças de luz se fazer em nossa trajetória.
Frustrante, é claro, não em face do desempenho do competente e versátil professor Fábio, mas em virtude dos números apresentados – nem sempre confiáveis, é verdade, como confessou por diversas vezes o professor (face às débeis fontes disponíveis), mas que foram suficientes para espelhar uma situação que deixa uma sensação de que não era para estar tão ruim assim, mesmo com todos os problemas que a economia e a situação do país impõem.
Quando a platéia foi convidada a se manifestar, categorizadas vozes se pronunciaram, algumas apontando as causas de nossos males, e outras, insinuando soluções, como: promover a implantação de mais bibliotecas; incentivar a compra de livros por parte do governo para formar seus acervos e baixar os custos; privilegiar as livrarias locais para esses fornecimentos, impedindo que as mesmas desapareçam; evitar a venda de livros didáticos das editoras diretamente às escolas, habituando o aluno a freqüentar as livrarias; combater a pirataria etc.
Uma opinião que pareceu alcançar consenso foi a de que somos desunidos e malpreparados para reivindicar junto ao governo. Essa tese propõe que sejamos representados por profissionais lobistas mais afeitos aos meandros do poder. Lembro que já se falou na Bancada do Livro. Como a idéia não se concretizou, não seria mais um reflexo da nossa reclamada falta de união?
Como a idéia desta modesta manifestação, deste igualmente modesto vendedor de livros, não é só relatar o que assistiu na reunião, aí vai minha colher no assunto. Estatísticas são efeitos. É preciso combater as causas.
Defendo que somos vendedores comuns de um produto incomum e diferenciado. Tanto é diferenciado que goza do privilégio da imunidade de impostos. Certamente essa imunidade não foi conquistada face aos eficientes reclamos de uma classe corporativa unida e ávida de lucros – que, está provado, não somos – mas sim, pelo próprio produto em si. É consenso que o livro é fundamental para o desenvolvimento de qualquer nação. Não por acaso, a pesquisa da revista Life, em 2000, apontou o livro como o evento mais importante do milênio. É desse produto que estamos falando!
O problema é muito mais complexo do que simplesmente abrir novas livrarias, ou viabilizar novas bibliotecas, ou ainda, fazer com que o governo compre mais. Tudo isso é importante, mas o fundamental é seduzir o novo leitor, desde os primeiros anos de vida, e outros, ainda conquistáveis ou resgatáveis. Afinal, nem todos que têm condições econômicas lêem.
Como se consegue isso? Vamos indagar a quem sabe, profissionais que se prepararam para induzir as pessoas a comer, a vestir e a assistir o que eles pretendem.
Um fabricante de automóveis não é necessariamente um bom vendedor de seu produto. Henry Ford e seu Ford T foi uma exceção; coisa de gênio. Não temos gênios por aqui, por isso nossos problemas.
Um produtor de cerveja ou de sabonete pode ser um bom técnico e bom empreendedor, mas não quer dizer que seja um bom sedutor de massas. Certamente o sr. Schincariol não bolou a campanha do Experimenta e nem o sr. Brahma o Nã, nã, nã, nã. Cada macaco na sua livraria.
Um exemplo de profissionalismo foi dado pela CBL e pela SNEL quando abriram mão de dedicados editores e livreiros, mas amadores na arte de montar feiras, terceirizando, a quem é do ramo, a montagem e administração das Bienais. Ponto para a classe!
Por outro lado, é sabido que, há tempos, durante a vigência da comissão paritária da indústria de papel e editores de livros, foram tomadas algumas iniciativas no sentido de profissionalizar a campanha do hábito da leitura. O problema sempre esbarra na falta de verba, principalmente para a veiculação e, não há que se negar, também na falta de consciência política de diversas diretorias de nossas entidades e da classe como um todo, porque esse é um processo que não pode sofrer solução de continuidade.
Aliás, vale lembrar que quando um grupo de editores e livreiros decidiu fundar a nossa Câmara, décadas atrás, tinha como objetivo, entre outros, principalmente institucionalizar campanhas de promoção do livro e do hábito da leitura.
Desta forma, para atender aos objetivos de seus fundadores, que hoje se revelam premonitórios, a CBL, que mantém, entre outros, um necessário departamento jurídico; deveria manter um não menos necessário departamento permanente de fomento ao hábito da leitura. Coisa para estatuto!
Não se trata de criar uma comissão como outra qualquer, que se monta de acordo com a filosofia e a vontade das diretorias que se sucedem.
As grandes empresas sobrevivem porque mantêm um departamento inteligente e permanente para promover seus produtos e manter o público cativo.
Para tentar suprir a falta de verba, as campanhas poderiam ser criadas através de concursos convocando-se estudantes, estagiários de Publicidade, Propaganda e Marketing, de diversas instituições, premiando-se a que apresentar a melhor proposta. O julgamento seria de uma equipe de profissionais da área, identificados com a causa e conscientes de que o hábito da leitura é um assunto muito mais sério e importante para a nação, do que possíveis e restritos interesses corporativos dos profissionais do livro.
Esse expediente deveria se repetir todos os anos, como o Prêmio Jabuti, por exemplo.
A veiculação, que é o nosso calcanhar-de-aquiles, requererá vontade política e a colaboração do Governo Federal. O que se reivindicará será espaço e não verba.
É sabido que as emissoras de TV são concessões governamentais e estas, há muito, têm capturado preciosas horas de jovens e adultos, não restituindo nada de positivo em troca.
Coleciono centenas de depoimentos de autoridades de diversas áreas que atestam a influência negativa da televisão, como forma e como conteúdo. O biólogo Roberto Frussa Filho sintetiza essa constatação em seu artigo para o Jornal da Tarde: “...durante as horas em que está exposto a ela, o indivíduo praticamente não se desenvolve física, intelectual, técnica ou afetivamente. Seu uso prolongado pode levar a uma síndrome caracterizada por desinteresse, apatia, falta de iniciativa e crítica. Enquanto está sob o seu poder, o comportamento do usuário reflete, mais do que qualquer outro, um sintoma específico: a passividade”. Então, a televisão está em débito com suas vítimas!
Assim, nas propagandas de cigarros já se alerta que é um produto cancerígeno. Nas de bebidas alcoólicas aconselha-se o uso com moderação. Isso não ocorre com a televisão, que não está acima do bem e do mal!
Um governo sensível e comprometido com a cultura e o social tem a obrigação de criar leis que utilizem todos os meios, no caso, o eletrônico para investir na educação e na cultura de seu povo sempre dócil às investidas do mais fácil e atraente que a telinha proporciona. Na verdade, trata-se de um resgate, pois um jovem assiste a cerca de sete horas de TV durante o dia. Quando não havia TV, esse tempo era preenchido, inclusive com a leitura.
O resultado dessa alienação todos conhecemos. Conforme demonstram os exames do ensino médio, exaustivamente divulgados pela imprensa, o jovem que vai comandar este país no futuro carece de raciocínio, é pouco habilitado a escrever um texto e o pior, a pensar! Isso, às vésperas da faculdade!
Assim, estamos tratando de um assunto de segurança nacional!
Por isso, deve-se exigir mais do Governo Federal. E, mais uma vez não se trata de verba.
Deve-se propor que todo pronunciamento de uma autoridade pública esteja atrelado a uma mensagem ligada ao livro.
Recorde-se que quando um conhecido presidente da República exibiu-se lendo um livro de neurolingüística, as edições desse assunto se esgotaram.
Dessa forma, um ministro da Saúde, por exemplo, que fosse se pronunciar sobre uma campanha de vacinação, poderia ligar o assunto ao livro, tendo às mãos um exemplar, insinuando que a leitura proporciona conhecimento, poderosa vacina contra a ignorância, mãe de todos os males.
Para cada assunto e perfil do personagem outras situações poderiam ser exploradas.
Enfim, o assunto é vasto e apaixonante, mas o espaço não permite maiores viagens. Fica plantada uma semente a ser regada por hábeis jardineiros.
Para encerrar, lembro a frase de um publicitário envolvido em velhas campanhas, que definia o livro como uma tia, de quem todo mundo gosta e admira, mas que poucos visitam.
Precisamos estimular mais visitas à bondosa senhora, para o bem de seus desatenciosos sobrinhos!
Afinal, a obrigação desta geração é munir a próxima – que vai gerir os destinos desta nação – de educação, consciência e solidariedade. Fazer ouvidos de mercador sobre esse tema é crime de lesa-pátria. O mundo globalizado não faz concessões!
*Artigo para a revista Panorama, uma publicação da Câmara Brasileira do Livro. |